quarta-feira, 29 de abril de 2009

Carta de Mãe (Alentejana)

Mê querido filho, Ponho-te estas poucas linhas para saberes que estou viva. Escrevo devagar por que sei que não gostas de ler depressa.
Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando-te outra.
Tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1km de casa. Assim, mudámo-nos para mais longe.
Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim arranquei os botões e puse-os no bolso. Quando chegar aí, prega-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e saímos fora de casa. Que emoção: foi a primeira vez em muitos anos que o tê pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O teu pai ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irmã Maria vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina, portanto não sei se vais ser tio ou tia.
Ah, já me esquecia: se o bebé que a tua irmã vai ter for menina, a tua irmã vai a chamá-lo como eu. Ela chamará mamã à tua irmã.
O teu irmão António deu-me muito trabalho hoje. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive que ir a casa, pegar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava em baixo.
O teu primo Manel casou-se e acontece que reza todos os dias à esposa porque é Virgem.
O clima não está mau. A semana passada só choveu duas vezes: a primeira vez durante três dias e a segunda durante quatro.
Nê segunda-fêra teve tanto vento que uma das galinha pôs o mesmo ovo quatro vezes.
O Tê ti Patricio, o Alarga-a-velha, afogou-se a semana passada num depósito de vinho, lá na adega da cuprativa, alguns compadris tentaram salvá-lo mas sabes, ele lutou bravamente contra eles. O corpo foi cremado mas levou três dias pra apagar o incêndio.

Quem nunca mais vimos por cá é o tio João Carlos, aquele que morreu o ano passado.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.

Tua Mãe Marta

PS: Era para te mandar os 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.

4 comentários:

ARYEH disse...

Uma carta de mãe com muitas saudades do filho, que vai dando noticias da sua terra.... bue fixe

cump

Sam disse...

esta tb merecia um hora do bau

Amarrotada disse...

Oh God!!!

claudia disse...

"Nê segunda-fêra teve tanto vento que uma das galinha pôs o mesmo ovo quatro vezes." Lindo! eh eh eh! Só de imaginar até choro!!!