segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Quero ser Maradona

"...
Quero ser Diego Maradona
E fazer o que me der na gana e vangloriar-me disso!
Necessito que que me queiram como Diego Maradona necessita que o queiram.
E quero-me suicidar como se vai suicidar Diego Maradona, atirando-se de um piso alto.
Quero Morrer, não pelas drogas, nem pelo peso da família, nem pelo peso dos triunfos, nem pelo fantasma dos fracassos, senão pela minha debilidade: porque o corpo já não aguenta receber mais nada e vai e atira-se de um piso alto.
Quero ser como Diego Maradona para viver com uma intensidade absurda absolutamente tudo.
Quero suportar com a mesma aparência física, pública de Diego Maradona a relação com o povo, quer dizer, com milhões de teus desconhecidos que te tocam.
Quero estar realmente jovem, realmente velho, realmente gordo, realmente colocado, realmente motivado, realmente apaixonado, realmente desencantado, e ser assim tão Transparente, inclusive rodeado de palhaços, de fantasmas, de oportunistas: quanto foi Maradona.
Quero ser Maradona para convidar os meus amigos a todos os tipos de excessos, excessos do corpo e da cabeça, considerando dentro destes últimos, os diálogos amenos onde nos escutamos e nos respondemos com o coração a bombear vinhos muito caros, detalhe que o nosso sangue já merecia de uma vez por todas.
Quero matar jornalistas, que vêm arrancar de mim, que sou Maradona, frases tontas, sensacionalistas, irreflexivas.
Quero foder como o Diego, sim que o Diego sabe fazê-lo bem!
Quero amar as minhas filhas como o Diego, com essa paixão cega que te chega do pior da tua educação, das imposições arcaicas do sagrado familiar, do sagrado religioso, do sagrado policial, do sagrado militar, do politicamente sagrado.
Quero ser Maradona para com o mesmo desenfreio, defender a tradição e de vez em quando deitar-lhe sal, azeite e comer tudo desfazer o mundo para mim, cuspir sobre tudo, esvaziar a bexiga e rebentar em cima de tudo, e ser o mais humano de todos,todos,todos.
Quero ser Diego de Velásquez para em vez de pintar a Infanta Margarida da Áustria ou o Conde de Olivares, ter no meu estúdio de Madrid, em 1700, o Maradona.
Quero ser Diego de Velásquez para pintar um retrato da selecção de futebol na mesma sala de AS MENINAS, em vez de pintar as meninas.
E quero ser Francisco de Goya y Lucientes para pintar o Maradona a jogar á bola
em SANTO ANTÒNIO E A FLÒRIDA! E fazer a mais negra das pinturas negras, com Diego Maradona a levitar como uma bruxa, ou enterrado até aos joelhos a dar murros no ar.
Quero ser Diego Maradona porque não me chega ser só o Pablo Picasso.
Quero despedaçar o meu corpo, que é imprescindível para continuar a fazer o que desejo fazer, o que não consigo viver sem fazer.
A partir de agora a minha glória será desfrutar de pequenos lugares comuns cada vez mais interessantes.
Quero habitar essa desordem final, limite. Disfrutar, desde a glória de carne até á decadência da carne.
Quero que se abram todas as portas do meu cérebro e meter aos Ingleses, na mesma partida, dois golos: um com a mão direita e outro a fintar com a esquerda todos os Adversários.
Quero ser Deus para pôr o nome a cada um dos adversários daquela tarde. Vão-se chamar: (Nomes dos jogadores daquele encontro).
Quero ser Maradona para estar nos mesmos hoteis que ele, para foder as mesmas mulheres, para partir portas ao pontapé, para disparar com uma espingarda de perdizes contra a imprensa, para que me aplaudam em directo 50 mil pessoas, para que meio planeta chore de emoção à frente de TV num mesmo segundo, quando eu mexo um pé!
Quero ser Maradona para desaparecer disso tudo, farto disso tudo, acima disso tudo, quero levar-me a mim, a alma de meio planeta, para a cama, para a casa de banho, fazer força e cagar em cima de mim.
Quero ser Maradona para comer arroz de Alicante ás tantas da noite depois de ter prometido voltar aos treinos, quero que me detenham em Sevilha porque conduzo um Ferrari a 200 pela GIRALDA e dizer ao policia: «Sou o Maradona e chego tarde ao jogo».
Quero que me queiram como Maradona necessita que o queiram.
E agora as razões porque não quero ser Maradona.
Por exemplo, por não me ter morto a tempo, ou por ter de suportar um corpo difícil de coordenar, ou por estar rodeado de uma família que nunca amei nem desejei, ou por não ter o dinheiro que antes tinha, ou por viver de homenagens quando o que queria era continuar a viver do meu talento.
E quero voltar a ser Maradona para dar carne aos carniceiros. Óleo aos motores. Para que o resto do mundo- a parte do mundo que não é Maradona - funcione algumas horas por dia só para falar de mim, ainda que seja mal.
Quero ser Maradona para servir de mau exemplo, do pior exemplo, quero dizer: para que cada um pense que a vida que leva, que levou e que vai levar não é uma mediocridade de vida, uma vida inexperiente, vazia de experiências, ou dito de outra forma, cheia de experiências comuns senão algo palpável, perto da família, do progresso e de toda essa merda.
Quero ser Diego Maradona para que os MUCHO MUCHACHO cantem este texto.
Quero ser Kipling mas, já que posso escolher, prefiro ser Diego Maradona. Quero ser Anne Sexton mas antes disso,deixem-me ser o Diego Maradona!"


texto de Rodrigo Garcia em AFTER SUN

Sem comentários: