segunda-feira, 30 de junho de 2014

Não, não somos todos amigos.

"Passeando hoje por murais e comentários de jornais online, não posso deixar de me sentir fora do tempo. As redes sociais parecem ter abolido o silêncio. É como se a dor individual, a mais arrasadora e indizível das dores, fosse um bem comunitário. Não, não somos todos amigos. Passámos séculos a lutar pela privacidade e por esse bem pouco apreciado que é o direito ao isolamento. E em tão pouco tempo isto voltou a parecer uma aldeia. Povoada por vizinhos que não respeitam as cortinas fechadas. Os gestos comunitários de solidariedade ou de censura são muito mais asfixiantes do que eram nas aldeias reais. Parece que o mundo se transformou num lugar demasiado pequeno para se viver. Um lugar onde tudo se sabe e nada se pode guardar. Tudo se conta, tudo se partilha. O nascimento, a morte, o amor, a perda, um momento de irrepetível prazer, o sofrimento insuportável, a primeira palavra de um filho, o primeiro beijo, a morte de quem se ama. No entanto, as coisas podem acontecer sem falarmos delas com milhares de pessoas e sem milhares de pessoas nos falarem delas. Acredito, cada vez mais, numa defesa irredutível da privacidade. É a única forma da palavra "amigo" (aquele com quem se partilha) continuar a fazer algum sentido. Para os que não são amigos, em momentos que não se vivem no meio de estranhos, deve sobrar o mais significativo dos gestos de solidariedade: o silêncio."

By Daniel Oliveira

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