terça-feira, 29 de junho de 2010

Selecção

Bem, digo varias vezes que não consigo sofrer pela selecçao portuguesa como sofro pelo meu Benfica. E é verdade! Quem me ouve, entre insultos diz que eu não sou patriota. Não tem nada a ver com patriotismo. Triste o país que precisa de bandeiras nas janelas a apoiar futebolistas, para mostrar algum patriotismo!
Simplesmente a verdade, é que a paixão que sinto pelo meu clube, é uma coisa irracional. Que me faz saltar, gritar, rir e até chorar. Com a selecçao não existe essa parte irracional. Quero que eles ganhem, sempre. Não tenham duvidas disso. Eu apoio sempre as selecções nacionais. Mas não consigo sofrer por elas.
Hoje Portugal foi eliminado do mundial, e estou aqui a escrever sem o minimo de azia ou tristesa. Consigo ver com a distancia necessaria, os erros e virtudes, o que correu mal e bem. Se fosse o meu Benfica estaria completamente f#$%$#.
Não vou escrever agora sobre a prestação portuguesa no mundial, deixo isso para depois. Agora apenas vou deixar-vos um texto (um pouco grande, peço desculpa por isso) de um outro benfiquista, escrita já há algum tempo, que reflete mesmo esta falta de irracionalidade no apoio à nossa selecção. Quem tiver paciencia, que leia.

"A sobrinha que hoje nos visita

É inevitável falar, hoje, de Selecção. Porque a Selecção, enquanto resistir como equipa de todos os portugueses, é, também, o único «nosso clube» que não nos merece a irracionalidade própria de todos os clubismos. Assim sendo, olhamos a Selecção com o desprendimento com que se olha a vida de uma sobrinha ausente. Claro que lhe queremos bem, mas não nos sentimos obcecados por acompanharmos a par e passo a sua vida.Hoje, porém, a sobrinha ausente visita-nos. Escolheu, estranhamente, a Dinamarca para este encontro de duas entidades que se gostam sem demasiado brilho ou paixão.
Como sempre acontece, nestas situações, em que os encontros não acontecem, antes são marcados em agenda, como se fôssemos todos um género de directores gerais de empresas do mesmo ramo, haverá um período de reserva mental.
Não seria razoável abrirmos logo os braços sem conseguirmos consumir, antes, a admissível dúvida: em que se terá transformado esta fulana?
Nestas ocasiões, lembro-me sempre do que diria o Cândido de Oliveira, que apenas conheci pela memória viva do Vítor Santos e a memória intelectual de meu pai. Ele diria: quando se trata de Selecção Nacional devemos sempre partir com uma atitude de simpatia. Percebe-se o conceito. Se alguma coisa correr mal neste encontro de tio e sobrinha a culpa não será nossa, o que além de ser um alívio de consciência, será, sempre, uma conveniência. Se, um dia, a rapariga tropeçar na desgraça não nos sentiremos culpados.
Todos nós sabemos que não é impossível que a Selecção tropece na desgraça, mas nenhum de nós o deseja e, bem pelo contrário, agora que vem de visita, para mais jovem e de beleza indesmentível, achamos que merecemos vê-la feliz. Há uma diferença notável quando se trata de um clube, ou, seja, de um filho. Sabemos que se o filho, ou, melhor, o clube for feliz, nós também o seremos. Muito.
Não é assim com a sobrinha Selecção. Não precisamos de nos sentirmos felizes com a sua felicidade. Basta sentirmo-nos contentes, às vezes, até, orgulhosos das suas proezas, das suas competências, porque não, da sua luminosa beleza. Aí dizemos, em vaidade: sabem que ela é minha sobrinha?
Confesso que estou um bocado nervoso com a visita, mais logo, da minha sobrinha Selecção. Não sei bem o que me espera, ou seja, o que nos espera. Ouvi dizer que traz um sotaque brasileiro, que lhe pode dar mais vida e alegria, que está feita uma rapariga determinada para vencer as vicissitudes da vida e que todos nós poderemos, ainda, vir a ter muito orgulho nela. Oxalá que sim — sei bem que é o que todos desejamos. E, no entanto, há este ratinho a roer o estômago e a sussurrar-me: tem cuidado, não esperes de mais que podes ter uma desilusão. E eu, ou seja, nós, que de ilusões e desilusões andamos cheios nesta terra de desilusionistas fico-me pela ideia do mestre Cândido, sei que vou ter uma atitude de simpatia, quando a porta se abrir e ela entrar, mas já não prometo mais que isso. Depois será com ela. Ou me conquista, ou me desilude e, se assim for, confesso, voltarei a ser um tio ausente."

Obrigado pelo texto André.

1 comentário:

Senator Buscetta disse...

Muito "boas" discussões já deu esta temática, gerando muitas vezes a fácil alusão à falta de patriotismo...

E como sempre respondo que se se medisse o patriotismo pelo apoio à selecção portuguesa de futebol, estaríamos nós muito mal! O que não falta são casos e hábitos no nosso dia-a-dia ou no debate de questões de interesse superior, sejam elas de cariz político ou económico, que pautam muito mais a ausência do dito "patriotismo".
Mas mesmo mantendo no desporto, costumo fazer seguir a pergunta, "quantos desportos em que atletas portugueses representam o nosso país acompanham ou já assistiram ao vivo?"... E a resposta é quase sempre a mesma, poucos ou nenhum... Algo que eu muito lamento... Aí então, se entra no debate se o patriotismo se restringe ao futebol. É pena que a nossa chama lusa se acenda somente com a carreira da selecção de futebol no campeonato do mundo ou da europa...

No que ao desporto rei diz respeito é conhecido a minha paixão. Acompanhando muitas competições ao longo do ano, especialmente o campeonato português e inglês... É igualmente fácil de reconhecer o meu "fanatismo" (não desmedido, mas altamente irracional)... Pelo Benfica. Talvez venha com "defeito", como tu Sam, fui embutido com o chip BENFICA, uma coisa com cariz inexplicável, que nos toca e muda o estado de espírito com a bola que entra, ou que bate na trave a sai para fora... Quanto à selecção... Identifiquei-me muito com o texto do Vítor Serpa, quando o li n'A Bola em Setembro passado. A selecção é mesmo aquela "sobrinha que está longe", que conseguimos analisar de forma mais fria, enche-nos de orgulho, mas analisa-se com mais racionalidade. Alegra-nos ou deixa-nos triste, mas não a seguimos de forma cega...

É assim...

Cumps,
André