terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mais um...

... do Alvim. Aqui fica:

"Está tudo bêbado e eu já não sei se estarei a ver bem. Mas parece-me, mesmo cambaleando, que ao sairmos à noite, todos queremos ficar bêbados mais depressa. E isto não terá sido sempre assim.
Há uma pressa em ficar bêbado que é típica de quem quer esquecer alguma coisa rápido. Eu não sei o que quer esquecer Portugal que nos obrigue a isto, mas também não faço ideia o que faz com que ingleses, suecos, finlandeses, irlandeses e escoceses ( só para citar alguns exemplos) também o façam. Mas gostava.
Há uma pressão alta para nos divertirmos. Toda a gente nos pressiona a isso e criou-se o estigma de que se não nos divertimos, não terá valido a pena. E ao sairmos de casa dizem-nos a gritar da sala do fundo: diverte-te! E ao chegarmos vivos, é invariável que alguém nos pergunte: Então divertiste-te? E é esta obsessão que nos faz beber depressa para que possamos estar tão divertidos quanto os outros e muitas das vezes, mais ainda. Com um problema: se não nos estamos a divertir, bebemos para o conseguir. Se estamos já divertidos, bebemos para ficar mais ainda. Só que agora, mais depressa, como se tivéssemos medo de estar sóbrios.
Contudo, o problema do álcool é que, salvo raras excepções, não faz de nós uma outra pessoa, mas potencia, isso sim, aquilo que já somos. Daí que os ingleses, tradicionalmente mais reservados e metódicos, tenham péssimas bebedeiras, precisamente por quererem transformar-se naquilo que não são. Já os irlandeses e escoceses, que têm fama de gajos porreiros, têm bebedeiras tão boas que chegam a não ter ressacas. E isso faz deles ainda mais porreiros. E isto explica que os portugueses, tradicionalmente saudosistas, quando fiquem bêbados se abracem uns aos outros para lembrar o passado e chorá-lo se for caso disso. Só que agora, mais depressa. Muito mais depressa."

in Espero bem que não